# O conforto da estagnação

> Polarização, preferência revelada e a ausência de um projeto de país: por que o eleitor brasileiro declara querer mudança, mas vota pela permanência.

- Author: Jose Artur Fortunato
- Published: 2026-09-29
- Language: pt-BR
- Topics: Política, Brasil, Economia, Desenvolvimento econômico
- URL: https://jafortunato.com.br/pt/blog/o-conforto-da-estagnacao/

*Polarização, preferência revelada e a ausência de um projeto de país*

Às vésperas das eleições de 2026, o eleitor brasileiro parece dizer duas coisas ao mesmo tempo.
Nas pesquisas de opinião, declara-se insatisfeito: em abril deste ano, 68% afirmavam que o país segue no caminho errado.[^1]
Nas urnas, no entanto, reafirma a mesma escolha de sempre, dividida entre dois polos.
Este ensaio se ocupa dessa contradição e propõe que ela não é um acidente, mas a chave para compreender o país.

A economia distingue há muito tempo entre preferências declaradas e preferências reveladas.
As primeiras correspondem ao que as pessoas dizem querer; as segundas, ao que suas escolhas efetivamente demonstram.
Quando as duas divergem, é prudente dar mais peso às segundas.
Aplicado à política brasileira, o conceito produz um diagnóstico desconfortável: o brasileiro declara desejar mudança, mas revela, pelo voto, preferência pela permanência.

Os números sustentam essa leitura.
Levantamento da BTG/Nexus de agosto de 2026 classifica 25% do eleitorado como lulistas convictos e 30% como bolsonaristas convictos.[^2]
Mais da metade do país tem posição definida antes mesmo de a campanha começar.
O sistema de dois turnos deveria, em tese, liberar o eleitor para votar em alternativas no primeiro turno.
Ainda assim, o voto se concentra: na pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro, os dois principais candidatos somavam 76% das intenções de voto no primeiro turno.[^3]

Convém, contudo, ser exato.
O voto não revela que o eleitor esteja satisfeito com o país.
Revela que o receio da vitória do adversário pesa mais que o desejo de transformação.
O resultado prático é o mesmo: cada polo garante ao outro a sua razão de existir, e o equilíbrio se mantém.

Pode-se objetar que o eleitor não abandona os polos por falta de alternativas viáveis, e não por apego à permanência.
A objeção, porém, descreve o problema em vez de refutá-lo.
O que ela aponta é uma falha de coordenação: a viabilidade de uma candidatura não é um dado prévio; ela é construída justamente pelos votos que recebe.
O eleitor que aguarda que uma alternativa se torne viável antes de apoiá-la garante que ela jamais se torne.
Com dois turnos, o custo de se coordenar no primeiro é baixo, e ainda assim a coordenação não acontece.
A ausência de opções, nesse sentido, não refuta a preferência revelada.
É uma de suas consequências.

O mesmo padrão se repete fora das urnas.
O Brasil aprovou reformas relevantes na última década, sob governos de orientações opostas: o teto de gastos, a reforma da Previdência e a reforma tributária.
Em quase todas, porém, o impulso original foi diluído ou revertido.
O teto foi abandonado poucos anos depois de criado, e a reforma tributária saiu repleta de regimes diferenciados obtidos por setores organizados.
Aceita-se a reforma em tese, desde que o seu custo recaia sobre outros.

Os resultados refletem essa escolha.
O PIB per capita levou onze anos para superar o pico de 2013, o que só ocorreu em 2024.[^4]
A taxa de investimento, de 16,8% do PIB em 2025,[^5] permanece abaixo da média mundial, próxima de 27%, e muito distante dos mais de 30% sustentados por décadas pela Coreia do Sul.[^6]
Os juros elevados que inibem esse investimento, por sua vez, refletem uma dívida pública que nenhum dos lados aceita conter.
Não se trata de colapso, mas de acomodação.
A ambição desenvolvimentista do século XX deu lugar a uma lógica de preservação de benefícios, de regimes especiais e de estruturas conquistadas ao longo de décadas.

O desenvolvimento, contudo, exige renúncia.
Seus custos são imediatos e concentrados; seus benefícios, difusos e futuros.
Nenhum governo a impõe sozinho: trata-se de uma decisão coletiva, que exige aceitar consequências desagradáveis no curto prazo.

Um projeto de país, nesse sentido, não precisa ser complicado.
Começaria por uma regra fiscal crível, que estabilize a dívida e abra espaço para juros menores; juros menores destravam o investimento, hoje a principal restrição ao crescimento.
Exigiria rever os regimes especiais e benefícios setoriais acumulados ao longo de décadas, e concentrar o esforço público no que eleva a produtividade: educação básica, infraestrutura e um ambiente de negócios mais simples.
Nada disso é novidade.
A dificuldade nunca foi saber o que fazer, mas aceitar quem paga a conta.

A história mostra que as sociedades raramente tomam essa decisão por iniciativa própria; em geral, ela é precipitada por uma crise.
Israel estabilizou sua moeda em 1985, com inflação acima de 400% ao ano; a Polônia adotou o Plano Balcerowicz em 1990, após o colapso da economia planificada; o Peru e a Índia reformaram-se no início dos anos 1990, diante, respectivamente, da hiperinflação e de uma crise de balanço de pagamentos.
Mais recentemente, a Argentina de Javier Milei iniciou seu ajuste após décadas de inflação crônica.
Mesmo exceções aparentes, como a disciplina monetária de Paul Volcker nos Estados Unidos ou o pacto social irlandês de 1987, responderam a situações já insustentáveis; a diferença esteve em agir antes do colapso.
As transformações mais duradouras, ao contrário das impostas com concentração de poder, foram aquelas que a sociedade aceitou democraticamente, por compreender o seu benefício.

O próprio Brasil conhece esse caminho.
O Plano Real, em 1994, exigiu disciplina e paciência de uma população exausta de inflação, e funcionou, porque o custo de não agir havia se tornado visível para todos.
Hoje, esse custo existe, mas é difuso.
Não aparece em um índice mensal; aparece no crescimento modesto, no investimento baixo e em gerações que prosperam menos do que poderiam.

Daí o dilema.
Se a sociedade não decidir mudar enquanto a escolha ainda está em suas mãos, é provável que a decisão acabe sendo tomada pelas circunstâncias, em condições muito menos favoráveis.
A história sugere que esse é o caminho mais comum.
Não precisa ser o nosso.
Em 2026, o eleitor tem a oportunidade de alinhar o que declara ao que revela, e o voto pode deixar de ser uma escolha entre lados para se tornar uma declaração sobre qual país se deseja construir.

[^1]: Ipsos, *What Worries the World*, Relatório do Brasil, abril de 2026.
[^2]: BTG Pactual/Nexus, Pesquisa Eleições 2026, rodada de 24 de agosto de 2026.
[^3]: Instituto Datafolha, pesquisa de intenção de voto para Presidente divulgada em 24 de setembro de 2026.
[^4]: FGV IBRE, Núcleo de Contas Nacionais, estimativas do PIB per capita em valores constantes, 2024.
[^5]: IBGE, Contas Nacionais Trimestrais, divulgação de 3 de março de 2026.
[^6]: Fundo Monetário Internacional, *World Economic Outlook*, séries de formação bruta de capital fixo.
